Memórias afetivas do Caiçaras

As três casas vizinhas da Avenida Visconde de Pirajá

As três casas vizinhas da Avenida Visconde de Pirajá, onde o clube começou

Para resgatar a história da origem do Caiçaras, fomos atrás das filhas de dois dos fundadores do clube. Maria Lúcia Câmara e Lia Souza Paiva Seixas aceitaram, gentilmente, compartilhar um pouco de tudo o que ouviram e vivenciaram durante a infância.

Maria Lúcia Câmara é filha de Antonio Azevedo de Castro Lima. Lia Souza Paiva Seixas, de Raphael de Souza Paiva. Dois personagens centrais no grupo de jovens moradores de uma Ipanema do ano de 1929, com pouquíssimas casas, nenhum calçamento nas ruas, e muita areia pelo caminho. Foi da “farra” promovida por esses jovens que o Clube dos Caiçaras nasceu.

“O mais incrível dessa história toda é imaginar que era mesmo uma grande farra. Eles não tinham qualquer recurso financeiro e conseguiram construir um clube da importância que o Caiçaras tem hoje. Era um mundo menos complicado”, resume Maria Lúcia.

Pranto Club
É pelos escritos deixados por seu pai que Maria Lúcia resgata um pouco da história. Neles, sempre em tom bem humorado, Castro Lima registrou, entre outras coisas, o porquê do primeiro nome do clube ser Pranto Club. É que cabia a Julião Vieira, outro fundador relevante para esta história, a função de tesoureiro. E conseguir dinheiro com ele era tão difícil que “só depois de muito choro”. “Meu pai tinha esse espírito brincalhão sempre”, justifica Maria Lúcia.

Outra característica bem marcante de Castro Lima era que ele não conseguia viver sem amigos. “Minha casa estava sempre cheia. A gente acordava e não podia ficar de pijama, tinha logo que se vestir porque você chegava na sala e já tinha umas 30 pessoas. Minha casa era um clube”, ri.

E era um clube mesmo. De acordo com os escritos deixados pelo então comandante da Marinha (posteriormente da Aeronáutica), na casa em que ele vivia com a esposa e os filhos na Avenida Visconde de Pirajá funcionava a secretaria do clube. Na casa vizinha, dos Souza Paiva, aconteciam as competições de pingue-pongue. E em uma terceira casa, de Julião Vieira, a tesouraria.

Posteriormente, o Pranto Club foi também para o Jardim de Alá, onde aconteciam as competições de nado. Depois, foi transferido para a Rua Nascimento Silva, até chegar, em 1931, à ilha que ocupa até hoje.

Ilha doada por Getúlio
Embora não dispusesse de recursos financeiros, Castro Lima tinha bons contatos na Marinha e era amigo da família do presidente Getúlio Vargas. Rafael de Souza Paiva, por sua vez, era um médico recém-formado, com apenas 21 anos, amigo de Augusto Amaral Peixoto, ligado à família de Vargas, e do prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto, que também era médico. Foi graças a estes contatos que eles conseguiram a doação da ilha, com a condição de ali construírem um espaço de convívio esportivo e social.

“As dificuldades foram muitas no início, mas vários amigos se associaram e passaram a ajudar. Todos os nomes constam na relação dos fundadores, homenageados com uma placa junto às quadras de tênis”, diz Lia, filha de Souza Paiva. “Foi tudo conquistado lentamente, com muito esforço envolvido. A primeira balsa, por exemplo, era puxada por correntes”, recorda.

Souza Paiva sempre foi um entusiasta do Caiçaras e, mesmo muito ocupado em sua vida profissional, acompanhava a política do clube e foi Comodoro por dez anos, em dois períodos, um de quatro anos e outro de seis anos, quando foi construído o Ginásio – a inauguração deste espaço, lembra Lia, teve show de Elis Regina e mais de 3.500 pessoas presentes. Raphael recebeu do Conselho Deliberativo os títulos de Comodoro de Honra, Fundador, Benemérito e Conselheiro Nato.

Já a avó de Lia, Dona Glória Souza Paiva, dona da casa da família na Rua Visconde de Pirajá, foi homenageada com um busto, localizado na varanda do clube, cuja placa informa que “o Caiçaras nasceu em seu lar, em 1929, e se consolidou em 1931”. Foi durante as reuniões em sua casa, com a presença das três famílias vizinhas e alguns amigos, que se tomou a decisão de levar adiante a ideia de criar um clube. “Ali começou o clube e ali também aconteciam os torneios de pingue-pongue, com direito aos deliciosos bolinhos que minha avó fazia”, conta Lia. “Graças ao esforço desses pioneiros, podemos desfrutar hoje desse clube com bela localização e que é um oásis de tranquilidade”, completa.